Era uma vez um menino de cabelo negro, ar traquina e olhar inteligente. Chamava-se João Maria e vivia na Ribeira do Porto.
João Maria adorava a Ribeira… especialmente o rio Douro. Com o ondular leve da água, as luzes tremiam e ele achava que aquilo se parecia com um samba com piada.
-Ah! Que mágico é o rio!- dizia.- As luzes dançam, como se houvesse moedas de ouro no fundo.
Certo início de tarde, o menino estava sentado na berma do rio, com as pernas baloiçantes. Um vento amigável penteava-lhe os cabelos para trás.
Sentia-se sozinho e queria alguém com quem falar, portanto, quando uma gaivota pousou a seu lado, não perdeu tempo:
-Olá, cara gaivota.
A gaivota trazia um pouco de cheiro a mar. Era um cheiro bonito como o começo de uma nova história.
-Olá rapaz.- respondeu. -Gosto deste rio.
-Pois é. Vês como a água brilha? Ela brilha assim porque tem ouro no fundo.- disse o menino.

João Maria observou a gaivota durante uns segundos.
-Quem me dera ter asas para voar para onde quiser… Assim como tu, gaivota!
-De facto, gosto muito das minhas asas.
-Se eu tivesse asas, voaria para a floresta Amazónica e conheceria animais diferentes, tribos indígenas…. Pediria às tribos que me contassem os segredos da floresta. Ou então voaria para uma praia tropical e pediria às tartarugas que me contassem acerca dos reinos no fundo do mar. Construiria o meu ninho numa palmeira junto ao mar, para ouvir o som das ondas a rebentar e a raspar a areia. Decoraria o meu ninho com búzios, pérolas e conchas.
-Se tu tivesses asas, trazia-te comigo nas minhas aventuras.– acrescentou, sonhadora, a gaivota.
-Por que é que eu não consigo voar? – perguntou o menino, triste.
A gaivota disse que não sabia responder àquela pergunta. Depois, os dois amigos ficaram mais um pouco a conversar e a brincar.
Nessa noite, a mãe aconchegava o menino na cama, quando lhe contou que todas as noites de ano novo pedia um desejo. Não tinha a certeza de quem os tornava realidade, mas suspeitava da Lua. A verdade é que, uma noite que estava muito triste, pôs-se a desabafar… e não é que ela respondeu? Parecia impossível, mas a mãe jurou que sabia mesmo como era o sorriso da Lua quando esta falava. Jurou também que já tinha ouvido a sua voz funda e cheia de beleza, como a longa nota de um violoncelo.
-Uau! A Lua fala! O que disse ela?
Mas a mãe não revelou e o mistério ficou inacabado como uma música deixada a meio.
-O que sabes mais sobre a Lua? – perguntou o menino.
-A Lua pertence à noite como um leão pertence à selva. Um dos poderes da Lua, por exemplo, é o de mover o mar. Para o mar vazar, inspira ar devagar e profundamente. Assim, o mar retira-se, arrastando a água salgada pela areia. Quando, por outro lado, quer que no mar haja maré enchente, ela utiliza todo o ar nos seus pulmões para soprar. Ganhando força, as ondas galopam pelo areal acima.
Certa manhã, João Maria escrevia num caderno, quando ouviu algo a bater contra o vidro da janela da cozinha. Tac tac tac.
-Olá gaivota!
-Encontrei isto.- a gaivota entregou-lhe uma concha.
Quando olhou para o interior da concha viu apenas água.
-O que tem?
-Repara como brilha! Quando sobrevoava o horizonte, olhei para baixo, para a água do mar e vi isto. Brilha igual à água do rio! Deve ter acontecido que um pedaço de ouro do rio Douro foi levado até chegar ao mar… onda atrás de onda…até ao horizonte.
-Onde fica o horizonte? – perguntou.
-Longe. No lugar onde o mar toca o céu. No dia que voares, eu mostro-te. – disse a gaivota.
-Quem me dera voar.- respondeu João Maria.
-Vamos juntos procurar asas!
A gaivota e o João Maria dirigiram-se a uma praia. Recolheram, com muita paciência, penas macias que encontraram no areal. Depois, utilizando resina de árvore, colaram as penas muito direitinhas para fazer duas asas.
-Finalmente vou voar!
João Maria pulou… mas não voou.
-Preciso de mais lanço!- disse.
Foi a correr em direção ao mar. Quando chegou perto da água, saltou o máximo que pode! No entanto, em vez de voar, caiu em cima de rochas duras e magoou-se muito.
-Ai, dói-me tanto! -disse, enquanto se agarrava à perna.
-Talvez seja necessário colar mais penas! Vou procurar. Volto já.- disse a gaivota.
O dia transformou-se em crepúsculo, o sol pôs-se, a noite instalou-se e, com ela, a Lua apareceu. O menino perguntou à Lua:
-Estás aí?
A Lua não respondeu. A maré vazava.
Passado um pouco, pequenos peixes tímidos e da cor da areia começaram a emergir dos seus esconderijos. Engraçaram com João Maria e, por essa razão, contaram-lhe dos jogos que faziam debaixo de água, como o passa-a-alga e o agarra-o-búzio. Com a conversa a ficar mais animada, outros seres dos reinos do fundo do mar juntaram-se à conversa.
-E tu tens algum jogo?- perguntou um caranguejo sapiente. Tinha um ar dançante e balançava-se ritmadamente com as suas patas laterais.
João Maria contou aos amigos do mar a sua história.
-As asas não poderiam funcionar porque tu não és um pássaro.- disse o caranguejo -No entanto, lá porque não podes voar como os pássaros voam, isso não significa que não possas voar de todo. Um humano a tentar voar com penas de ave seria como um peixe a tentar respirar com nariz de humano!
O caranguejo sapiente e o João Maria conversaram um pouco. Após alguns argumentos a favor e contra, concluíram que tentariam construir um balão de ar quente. O caranguejo, com as suas patas rápidas, conseguia mover-se pela areia e pela água. Com as pinças, conseguia pegar e cortar coisas.
O caranguejo pediu aos peixes que procurassem, no fundo do mar, um balde, uma corda, um pano grande e uma cesta de vime.
Após terem reunido todas as partes necessárias, o caranguejo sapiente e engenhocas cortou, amarrou e organizou as coisas de forma que, no final, havia um balão de ar quente.
-Entra no cesto. Vamos fazer uma fogueira dentro do balde e, assim, o balão irá subir.
Fizeram uma fogueira, mas o balão não se moveu.
-Desisto!- disse João Maria, frustrado.
Até que reparou num búzio grande trazido pela maré. Dentro do búzio, havia o som do mar. Vshhh… Vshhh… Pareceu a João Maria ouvir também, muito baixinho, como que trazida entre murmúrios, a voz da mãe. Sentiu-se mais leve no coração… e teve uma ideia brilhante!
-Será que o balão não voa porque precisa de ficar mais leve?
João Maria retirou areia e seixos que estavam acumulados no fundo do cesto de vime.
-Ó gaivota, gaivota!
A gaivota estava ao fundo da praia. Segurava nos braços um monte de penas tão grande que não conseguia ver nada.
-Já consigo voar! – gritou João Maria de dentro do balão de ar quente que agora começava a subir.
-Tu estás… Tu estás a voar?
A gaivota deixou cair o enorme monte de penas. Desequilibrou-se e tropeçou, mas rapidamente se recompôs.
-Vamos, vamos voar juntos! – exclamou, com alegria, a gaivota e começou a bater as suas asas.
Os dois amigos voaram rumo ao horizonte. Quanto mais subiam, mais as casas, as árvores e tudo o resto pareciam pequeninos… como se fossem de brincar!
João Maria começou a sentir uma comichão na cabeça e, quando reparou, era o caranguejo que lhe cortava o cabelo com as pinças. Que graça! Começaram todos a rir muito.
Os amigos subiam… subiam… subiam…
-Estava tão preocupado a tentar ser um pássaro que nem me lembrei que poderia voar da minha própria forma!- concluiu João Maria, com o coração completo de alegria e sonho.
Os três amigos voavam… voavam… voavam