Alguma vez escreveste uma carta de amor?

O dia dos namorados está a chegar e espero que desfrutem dele ❣️rodeados de amor❣️ (quer seja com um namorado/a ou amigos)! Para os românticos incuráveis, partilho aqui uma pequena história. Ela é um pouco diferente daquilo que costumo escrever. Foi um desafio que surgiu numa aula de escrita criativa: criar uma prosa poética em estilo surrealista (que remete para o sonho e nos faz pensar “???”). Desta vez saí um pouco da minha zona de conforto, o que é sempre bom.

Esta é a história de um amor com toda a profundidade dos amores verdadeiros. Um amor que apesar de puro, é impossível. Espero que gostem!

com carinho,

Paloma



Espaço para o nosso olhar

À beira da água pura, tatuava o doce desejo do teu olhar na minha pálpebra. Mel de abelhas do Niágara, canela que esvoaçou de um pastel de nata e uma cereja que adormeceu num copo de Martini. É mais ou menos esse o paladar dos teus olhos cor de camuflagem, quando as microexpressões fogem e pegam num microfone. Ia tatuando… mas todo o paladar tem olfato e fiquei cheia de fome. O cheiro era tão intenso! Debrucei-me sobre os orvalhos de ternura grisalhos, para matar a sede. Até que ouvi a tua voz ríspida:

-Para. Aqui, acolá… não há lugar! Nem amanhã, nem ontem. Vivemos num espaço-tempo cheio de internas derrotas.

Debrucei-me de novo e encontrei a tua verdade. A fonte eram os teus olhos, a água pura as tuas lágrimas.

-És tu a fonte desta água tão bonita. Um dia vais ter asas, prometo. Para de chorar. Calma, vou arranjar espaço! Sei que agora, aqui, não cabemos, mas vou arranjar um espaço, prometo.- disse.

Saí e deixei no ar uma pintura misteriosa. Não sabias se iria voltar.



-Espaço para o nosso olhar. Quero um espaço para a forma como nos olhamos, por favor.- solicitei, com cortesia de galáxia, a um funcionário poeta, que estava sentado numa caneta de um instituto apalavrado.  

-Lágrima, por favor?- respondeu, enquanto juntava papéis  de tintura de iodo.

Retirei, com impaciência, um frasco humedecido de vidro da minha bolsa e estendi-lhe o cateter.

-Quantas rimas?

-Quantas couberem numa emoção tão funda que cai a pique, deixando na barriga um esboço, como numa montanha-russa.

-Derivaram do papel ou do ar?

-As emoções?- indaguei.

-As palavras.- solicitou o solicitante.

-Nós não vamos falar, só nos vamos olhar. Quero espaço para estarmos em silêncio.

-Quer uma folha em branco?

-Sim, uma folha em branco, por favor.

Escrevemos um poema e começamos de novo.


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