Uma gaivota reguila e o sonho de voar

Era uma vez uma menina de cabelo negro, sorriso brincalhão e olhar sonhador. Chamava-se Maria e vivia na Ribeira do Porto, um local encantador.

Maria adorava a Ribeira… especialmente o rio Douro. Com o ondular por vezes leve, outras vezes ventoso da água, as luzes tremiam e ela achava que aquilo se parecia com um samba com piada.

-Ah! Que mágico é o rio!- dizia.- As luzes dançam!

Certo início de tarde, a menina estava sentada na berma do rio, com as pernas a baloiçar. O vento penteava-lhe os cabelos para trás. Sentia-se sozinha e queria alguém com quem falar, portanto, quando uma gaivota pousou ao seu lado, não perdeu tempo:

-Olá, cara gaivota.

A gaivota tinha um ar reguila, penas bonitas como nuvens e uma expressão um tanto altiva. Trazia o cheiro do mar. Era um cheiro bonito como o começo de uma nova história…

Maria observou a gaivota durante uns segundos. A gaivota também a observava.

-Quem me dera ter asas para voar para onde quiser… Assim como tu, gaivota.

-De facto, gosto muito das minhas asas.- respondeu.

-Se eu tivesse asas, podia voar para a floresta Amazónica e conhecer animais exóticos. Ah, os amigos que eu ia fazer! Procurava segredos profundos, explorando a floresta densa. Ou então voava para uma praia tropical e pedia às tartarugas que me contassem acerca dos reinos no fundo do mar. Construía o meu ninho numa palmeira junto ao mar, para ouvir o som das ondas a rebentar e a raspar a areia. Decorava o meu ninho com búzios, pérolas e conchas. Quando o sol nascesse, a luz ia refletir como uma bola de espelhos. O sol ia dançar no meu lar, assim como dança no rio Douro!

-Se tu tivesses asas, trazia-te comigo nas minhas aventuras. Há muitos segredos do mundo que te posso contar. A Lua, por exemplo, tem tantos que ainda não os conheço todos! Ela pertence à noite como um leão pertence à selva. Um dos poderes da Lua, por exemplo, é o de mover o mar. Para o mar vazar, inspira ar devagar e profundamente. Assim, o mar retira-se, arrastando a água salgada pela areia. Quando, por outro lado, quer que no mar haja maré enchente, ela utiliza todo o ar nos seus pulmões para soprar. Ganhando força, as ondas galopam pelo areal acima– acrescentou, com mistério, a gaivota.- Quem me dera trazer-te comigo, nos meus voos em busca dos mistérios do mundo.

-Quem me dera voar.- suspirou alto Maria.

-Vamos juntas procurar asas!

Muitas amizades começam com sonhos parecidos. Foi o caso da gaivota e da Maria.

As duas amigas dirigiram-se a uma praia. Iam recolhendo, com muita paciência, penas macias que encontravam no areal. Quando encontravam penas, tentavam escolher as mais parecidas possível com as asas da gaivota. Depois de sentirem que tinham a quantidade suficiente, utilizando resina de árvore, colaram as penas muito direitinhas nas costas da Maria, de forma a fazer duas asas.

-Finalmente vou voar!- Maria estava tão feliz, que pulava na areia, atirando os braços para o ar.- Viva! Viva!

Quando decidiu que estava pronta para tornar o seu sonho realidade, Maria deu uns passos para trás para ganhar lanço. O coração batia muito rápido, com animação e esperança, enquanto se preparava para, finalmente, partir em busca dos segredos do mundo! A gaivota observava-a com nervosismo e expectativa.

Com o olhar no horizonte, Maria foi a correr para a frente e pulou… mas…. Ai, que desilusão! Não voou.

-Preciso de mais lanço!- disse Maria.

Com as penas coladas com resina nas costas, respirou fundo e, desta vez,  deu ainda mais passos atrás. Depois correu para a frente, agora com ainda mais velocidade, em direção ao mar! Quando chegou perto da água, saltou o máximo que pôde e…

Catrapum! Caiu e rebolou em cima de rochas duras.

-Ai, que tristeza! Não consigo voar! -disse Maria, enquanto limpava as lágrimas dos olhos.

-Talvez seja necessário colar mais penas! Vou procurar. Volto já.- disse a gaivota, que não desistia facilmente dos seus sonhos.

Passado um pouco, pequenos peixes tímidos começaram a sair dos seus esconderijos. Contaram a Maria dos jogos que faziam debaixo da água, como o passa-a-alga e o agarra-o-búzio. Com a conversa a ficar mais animada, outros seres dos reinos do fundo do mar juntaram-se à conversa.

-E tu tens algum jogo?- perguntou um caranguejo sapiente.

Maria contou aos novos amigos do mar que tentara voar, mas que não conseguira e que estava mesmo muito triste.

-As asas nunca poderiam funcionar porque tu não és um pássaro.- disse o caranguejo, com uma voz calma e compreensiva, para que Maria não chorasse. -No entanto, lá porque não podes voar como os pássaros voam, isso não significa que não possas voar de todo. Um humano a tentar voar com penas de ave seria como um peixe a tentar respirar com nariz de humano!.-Depois, com um ar sábio e um sorriso de pinça a pinça, acrescentou.- Já sei como é que podes voar!

O caranguejo subiu para o topo de uma rocha e, com o ar que se faz quando se dá um comunicado importante, pediu ajuda aos peixes:

-Preciso que procurem, no fundo do mar, um balde, uma corda, um pano grande e uma cesta de vime.

Os peixes procuraram dentro de grutas e debaixo da areia que, nas tempestades do mar, se revolve e esconde coisas. Procuraram dentro de conchas, entre as frinchas das rochas, por entre as cortinas de algas, dentro de barcos naufragados. Bateram à porta de casa de polvos, pediram indicações e ideias a estrelas-do-mar que, ainda que muito paradinhas, são atentas e escutam tudo. Depois da busca, os peixes regressaram muito satisfeitos. Tinham encontrado tudo!

O caranguejo tinha tudo o que precisava para pôr o seu plano em prática. Com as suas pinças engenhocas cortou, amarrou e organizou as coisas de forma que, no final, havia um balão de ar quente!

-Entra no cesto. Vamos fazer uma fogueira dentro do balde e, assim, o balão irá subir.

-Será que vai ser agora? Será que finalmente vou realizar o meu sonho e voar?- disse Maria, com alegria na voz.

O caranguejo reuniu troncos que encontrou no areal da praia. Depois, utilizando um ramo fino como se fosse um fósforo, fez fogo! Dentro do balde, a fogueira ardia e o balão ia-se enchendo de ar quente, redondo como um balão de S. João. Quando o balão já estava bem redondo, o cesto começou a subir… a subir… a subir pelo céu estrelado, em direção à Lua!

-Já consigo voar! –  exclamou Maria de dentro do balão de ar quente.

-Tu estás… Tu estás a voar?- disse a gaivota, quando a viu ao longe, dentro do balão que agora subia. Com a surpresa, deixou cair o enorme monte de penas que transportava. Até se desequilibrou e tropeçou, mas rapidamente se recompôs. -Vamos, vamos voar juntos! – exclamou, com alegria, a gaivota, que nunca tinha visto um balão tão bonito.

O balão de ar quente subia… subia… subia… A Maria e gaivota voavam… voavam.. voavam…

-Vamos ser as mais sonhadoras parceiras de aventura!- exclamou a gaivota enquanto batia as suas asas.

-Estava tão preocupada a tentar ser como um pássaro que nem me lembrei que poderia voar da minha própria forma!- disse Maria, com o coração cheio de alegria , como acontece sempre no final de uma aventura vitoriosa. – Todos nós temos a nossa própria forma de voar. Basta sermos nós próprios!

Scroll to Top