Era uma vez uma menina que se chamava Paloma e que vivia numa quinta com muitas árvores. Certa manhã, passeava junto de um eucalipto que era enorme e tinha centenas de anos de idade. Paloma sentou-se num banco de pedra e leu um poema num azulejo.
Sentiu-se tão inspirada pelo poema que, nessa noite, foi para a biblioteca da quinta escrever uma história. Lá fora, na escuridão, alguns sons rangiam e misturavam-se com o tricotar de cigarras: cri cri cri.
Paloma escrevia… escrevia…. Mas à medida que o tempo passava, a poltrona onde estava sentada ia ficando cada vez mais confortável… e acabou por adormecer.
Cucú, Cucú! Acordou sobressaltada com o relógio a avisar que era uma da manhã. Espera lá… Livros flutuavam no ar? Esfregou os olhos para confirmar que estava bem acordada. Um pequeno ser com uma varinha na mão agitava os braços. Havia pozinhos de perlim pim pim, livros que pairavam, desarrumação nas prateleiras!
-Mas… mas quem és tu?-perguntou ela.
-Ora que esta! Isso pergunto-te eu.- respondeu o elfo.
Paloma apresentou-se e o elfo também. Ele explicou-lhe que era o rei do Reino do Eucalipto, um reino situado entre as raízes do grande eucalipto.
O elfo tinha a pele verde e enrugada, óculos que pousavam na ponta do nariz pontiagudo. Usava um manto e uma coroa e flutuava numa pequena nuvem de pó mágico.
O rei contou, orgulhosamente, que havia construído uma biblioteca para os habitantes do reino. Na biblioteca, conseguira reunir um exemplar de todos os livros do mundo… todos menos um!
-Procuro o livro mais procurado na história dos bibliófilos… -acrescentou o rei.
-Que livro é esse?- perguntou Paloma.

O elfo tinha a pele verde e enrugada, óculos que pousavam na ponta do nariz pontiagudo. Usava um manto e uma coroa e flutuava numa pequena nuvem de pó mágico.
-Reza a lenda que existe um livro mais antigo que a própria literatura… Contém a fórmula para se escrever uma boa história! Este livro mágico é muito, muito cobiçado. As palavras que nele se leem mudam conforme o leitor. Na ambição de o encontrar já houve amores e dissabores, feitos e crimes, proezas e maldades… Mas o local onde está guardado permanece um mistério…
-Um mistério até nós o desvendarmos! Deixa-me procurar o livro contigo… -Paloma sorriu com o olhar.
-Basta de disparates!-Bramou o rei.- Trata-se de uma missão perigosa e não de uma brincadeira de crianças! Não podes vir comigo nesta expedição. Mas antes de partir na minha missão a solo, gostava de saber… o que escrevias? -perguntou o elfo enquanto olhava de soslaio para o papel pousado no braço da poltrona.
-Escrevia uma história sobre fadas. -disse Paloma. -Li hoje um poema num azulejo e senti-me tão inspirada que quis escrever.
O rei elfo confessou-lhe que adoraria escrever mas, infelizmente, não tinha nascido com veia de poeta. Depois perguntou-lhe se podia ver o poema no azulejo e a menina disse que sim.
Os dois foram, iluminados pela luz de uma lamparina flutuante, até ao local do azulejo. Só que, quando lá chegaram, ficaram desiludidos…
-Este azulejo não tem nada escrito. Deves ter imaginado! -concluiu o rei.
O rei elfo e a menina dos caracóis ruivos sentaram-se no banco de pedra. Até que o elfo olhou de novo para o azulejo e… que surpresa a sua quando viu um texto que tinha aparecido como por magia! O texto dizia o seguinte:
“Escreve uma história como quem conta um conto para uma plateia atenta. Escreve uma história como quem dirige uma peça de teatro.. Escreve uma história como quem pinta um quadro, como quem compõe uma canção, como quem molda uma escultura de barro com as próprias mãos!”
-Eureka! Desvendamos o maior mistério literário de todos os tempos! O livro que eu procurava não é um livro realmente, mas um azulejo mágico…-o rei elfo estava estupefacto.
-Há mais um texto no azulejo! – exclamou a menina. E leu:
“A palavra é uma coisa muito poderosa! Pode conquistar corações. Por vezes cura, mas outras vezes magoa e, por essa razão, é preciso usar a palavra com responsabilidade.”
Os dois amigos celebraram a descoberta! Depois, como o rei nunca tinha tido filhos, perguntou a Paloma se aceitaria ficar e ser a princesa do Reino do Eucalipto. Paloma disse que não, pois ficaria com saudades de casa. No entanto, ficou tão, tão, tão feliz com a descoberta, que decidiu:
-Quando crescer, quero ser escritora! Escritora de livros ou até, quem sabe… escritora de cartas!
Até hoje, na biblioteca de um reino abrigado pelas raízes de um eucalipto centenário, existe, pousado numa prateleira, um livro com uma história maravilhosa sobre fadas. Esta história foi escrita por um elfo que achava que não podia escrever e por uma menina que era como sua filha, ainda que não o fosse realmente… e como uma princesa, ainda que não usasse coroa.